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O flash que queimou

Uma tarde de 2004, um banheiro de faculdade e uma decisão que me ensinou mais do que qualquer equipamento.

Em 2004, as stylists Ana Lídia Borges e Marie Nepomuceno me chamaram para fotografar algumas produções suas, que seriam enviadas ao Casa de Criadores, um concurso nacional de fotografia e produção de moda. A faculdade liberou o banheiro feminino do andar em que elas cursavam Design de Moda, e foi ali que montamos o cenário numa tarde cinzenta e abafada.

Liguei na tomada o meu único flash de estúdio, para usar com uma sombrinha difusora, e saí para buscar o resto do equipamento. Quando voltei, senti cheiro de queimado. O flash era 110 V e a tomada era 220 V. Pensei, com o coração na boca: sem ele, não haveria luz suficiente naquele banheiro, e a data de envio estava perto.

Sobravam duas saídas: cancelar tudo ou fingir que o flash não faria falta. Escolhi seguir. Usei o flash embutido da câmera para disparar um speedlight simples, apoiado numa fotocélula. A fotocélula dispara o segundo flash quando percebe o primeiro.

O clima do ensaio foi ótimo: muito trabalho, muita risada, e a Marie e a Ana Lídia pensando em cada detalhe e em cada pose. Quando terminamos, corremos para revelar o filme e fazer as ampliações 10x15 no único lugar aberto àquela hora, o Plaza Shopping de Niterói. Foram 60 minutos de expectativa.

O final da história foi em São Paulo, na premiação, onde nossa fotografia foi exposta. Ficamos entre os dez melhores trabalhos. A foto que mandamos é a que foi feita no banheiro, sem nenhuma edição digital, em filme Kodak Pro Image 100, com uma Canon EOS 5 analógica.

Duas jovens em um banheiro de faculdade: uma sentada sobre o vaso, de camisa vermelha e short azul, e outra no chão, de regata rosa, segurando um livro
A fotografia enviada ao Casa de Criadores, em 2004. Filme Kodak Pro Image 100, Canon EOS 5, sem edição digital.

A lição ficou comigo até hoje: o que dá bom resultado não é ter o melhor equipamento, e sim usar da melhor maneira o que se tem. O melhor que tínhamos naquela tarde era a vontade de fazer um bom trabalho e as pessoas certas ao lado. É por isso que, até hoje, eu começo qualquer projeto pela conversa e pela equipe.

Se você tem um projeto e quer montá-lo com cuidado, conte o que tem em mente.

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